01 setembro, 2014

A festa da banana


Em março deste ano, acompanhei minha mãe (a pedido dela), numa fiscalização de obras na comunidade da Mutuca no município de Nossa Senhora do Livramento (MT). Ali residem várias famílias quilombolas que vivem da cultura local, plantando milho, arroz, feijão, banana, dentre outros, além do artesanato, produção de farinhas, etc. Eles nos contam que foram 47 anos de luta contra a escravidão e os fazendeiros, até que em 1997 foi criada a hoje denominada Associação da Comunidade Negra Rural Quilombo Ribeirão da Mutuca, e finalmente possuem suas terras legalizadas. 

Todos ali são pequenos produtores rurais sobrevivendo da própria terra. Resistindo há séculos a ganância dos grandes produtores, eles se mantêm unidos e a todo custo buscam manter o cultivo de uma das vedetes da culinária brasileira: a banana da terra. 

Para quem não sabe, os mato grossenses em geral são apelidados de papa banana. Em Cuiabá, é comum nas casas de famílias mais tradicionais a banana acompanhar qualquer prato. É tão requisitada quanto a farofa. Melhor ainda se for farofa de banana. Por ser menos doce e mais rica em amido, é melhor comê-la frita, assada, cozida... nham!

O município de Nossa Senhora do Livramento foi um grande produtor dessa iguaria. Hoje existem pouquíssimas plantações por causa da agricultura extensiva que está acabando com a vegetação e a tradição do Estado. A festa da banana começou com a intenção de manter a tradição do cultivo e da cultura local. Agora no seu 6º ano, se tornou uma boa fonte de renda para os produtores da comunidade, além de se divertirem numa festa regada a música, artesanato e muita, muita banana em diversos produtos comercializados ali. 

Hoje, muitos mercados e supermercados compram banana de outros estados para revender. É estranho uma população ter que 'importar' sua tradição. E por isso eles criaram a festa.  

Lembranças dos outros anos de Festa. 
Este ano, a festa ocorreu no dia 06 de julho e foi divulgada em alguns jornais locais. Em março, quando conheci a Laura Ferreira (organizadora da festa e residente local), comentei -quando ela fez o convite - que era meu aniversário e eu não sabia se estaria por aqui. Ela exclamou que o melhor de tudo é que eu não precisaria organizar uma festa, pois já tinha uma. Dito e feito. Naquele domingo ensolarado, fomos nos empaturrar de banana na VI Festa da Banana Quilombola. 

Pela parte da manhã teve apresentação de danças típicas como o Cururu, o Siriri e algumas danças de origem africana. 


As vendas dos produtos locais iam de vento em popa. Tinha melaço de cana, mel, banana frita, frutas em conserva, licor de banana e outras frutas, rapadura de banana, furrundu, bala de banana e muitos outros. 


 A banana frita mereceu um close. É o melhor tira-gosto (na minha opinião) da face da terra!


Ainda pela manhã teve uma oficina para ensinar fazer farinha de banana da terra. Na festa estavam presentes estudantes de gastronomia de uma universidade local, e nem preciso dizer que eles dominaram a oficina. Por causa da aglomeração em torno da pequena mesa montada para demonstração, não consegui tirar fotos do passo a passo. Mas anotei tudo:

Preparação da oficina. Foco no pilão ;)
Precisa apenas de banana da terra verde. 1. Lave as bananas (inteiras) esfregando bem sua casca. 2. Com uma faca, descasque as bananas. 3. Reserve o interior das bananas para outras receitas. 4. Espalhe os pedaços de casca na assadeira e seque-as em forno brando durante 3 ou 4 dias. 5. Coloque as cascas num pilão e soque até formar a farinha. Para os sem força, pode usar um liquidificador ou outro aparelho que facilite a vida. Prontinho. 


A dona desse delicioso bolo acima nos contou que eles substituem a farinha de trigo pela farinha de banana em muitas receitas. E que o resultado é o mesmo quando se usa a farinha comum. Tá aí uma ótima dica para os celíacos. 


No início da tarde o povo tava com fome e o almoço foi liberado. Foi servido arroz branco (reparem no prato desfocado no canto inferior a direita) e um guisado de feijão, carne e banana, é claro. E farofa. Eu não provei por conta da carne (e também já havia me empanturrado de chips de banana), mas todos na mesa lambiam os beiços e não deixaram sobrar nada. 

Pausa pra um espetinho e uma prosa após o almoço. 
De pança cheia, a ideia era descansar. Depois de tomar garapas para espantar o calor e quebrar o gosto salgado do almoço, foi a vez do desfile para promover a garota da festa da Banana de 2014.  A organizadora teve de chamar pessoas de fora da comunidade para uma eleição justa. O que não durou muito tempo e foi uma divertida confusão. Familiares e amigos das garotas berravam quem tinha que ganhar. Ou cada vez que suas favoritas apareciam. A solução foi os jurados desconhecidos elegerem as 3 melhores em cada categoria (mirim e juvenil) e a vencedora foi elegida pelo voto popular. 


Depois de muito alvoroço, foi elegida a que tinha mais torcedores. Foi uma festa! 

  

E como não pode faltar em nenhuma festa matogrossense, uma banda local de lambadão subiu ao palco e botou todo mundo pra dançar. O salão ficou pequeno para aquela quantidade de casais que sabiam como ninguém requebrar os quadris. 



Foi uma festa bonita, repleta de comida boa, conversa fiada, bebidas e tradição. Na hora do 'baile', ninguém ficou de fora. Todos comemoravam mais um ano de sucesso da Festa da Banana. 


Quando nos despedíamos para ir embora (e pegar a estrada antes de anoitecer), Laura (a organizadora da festa) disse-me que tinha uma torta pra mim. Pensei em um pedaço ou algo do gênero e lá veio ela com um bolo inteiro só pra mim dizendo: eu não me esqueci do seu aniversário! Eu só a vi uma vez (quando a conheci). Mas seu gesto foi tão, tão significativo que até hoje não sei explicar o que senti quando ela me disse eu não esqueci e preparei um bolo pra você. Principalmente, quando o único gesto carinhoso recebido nesta data veio de alguém quase desconhecido. Foi uma excelente festa! 

Laura, o bolo e eu (segurando o choro)
Um bolo básico recheado com creme de coco e uma deliciosa crosta de banana... Não durou 5 dias! Pretendo voltar à comunidade para recolher inúmeras receitas, incluindo a do bolo.

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