10 julho, 2014

Sopa de abobrinha menina


Essa temporada na casa dos meus pais tem me ajudado a observar umas coisas interessantes sobre a mídia e sua criação de problemas. Agora me toquei que já fazem 13 anos que sai daqui. Me lembro que era raro o inverno (como conhecemos nos livros de geografia) ocorrer aqui. Frio só quando vinha alguma frente fria do sul e conseguia passar a barreira da densa vegetação existente. O inverno em Cuiabá era a mesma coisa que o verão, com a diferença apenas da chuva (no verão chove pra caramba e no inverno é seco, seco). Quando chegava uma frente fria, não durava 3 dias. O ruim era apenas a mudança brusca de temperatura. Um dia com seus 40º e no outro amanhecia perto de 10º. Pra sentirmos frio tinhamos que viajar. 

Mas em 2003 um senhor com cara de boa pinta assumiu o governo do Estado. Ele é famoso. Em 2005 recebeu o prêmio moto-serra de ouro (criado pelo Greenpeace) do programa Pânico (quando era interessante) pelo desmatamento desenfreado que ele promoveu, tudo em nome da soja. Ele é conhecido como o rei da soja para quem não sabe. Minha mãe trabalhou muitos anos num órgão ambiental do estado que foi 'desativando' a partir do seu mandato. Ele foi acusado de usar agente laranja no início do seu desmatamento, mas até hoje o tema é abafado, pouco falado e nada foi comprovado... Bom, algo ele fez em 2 anos para desmatar tão rapidamente. Foi através dos relatos da minha mãe dos seus trabalhos pelo interior que eu aboli a soja do meu cardápio. Nessa época eu já morava fora, e sempre que nos encontrávamos ela vinha com estudos e mais estudos da "limpeza" que é a produção desses desertos verdes. Desconfio que a desenfreada campanha de que a soja faz bem pra saúde, foi um jogo de marketing de quando o Brasil (e o rei) perderam muitas vendas de exportação porque os gringos não queriam mais aquela soja com tanto veneno adicionado. (Não acredite na mídia, venha por aqui e viaje pelo interior e converse com fazendeiros, trabalhadores, médicos e moradores de cidades próximas as grandes fazendas.) Mato Grosso, como todo estado brasileiro, tem sua má fama. Terra de bandido, terra sem lei, terra da agropecuária, terra da agricultura promissora... Em geral, pessoas de fama elevada figuram entre 2 desses apelidos. 

Tudo isso pra dizer como é difícil comer bem em determinados lugares. Um estado tão rico (só para os bandidos, latifundiários e fazendeiros) mas péssimo de se encontrar comida, variedade, comida de verdade. As pessoas tem uma mania horrenda de menosprezar o nordeste, que mesmo com seu coronelismo  e problemas, as pessoas são mais inteligentes, esforçadas e possuem mais variedade de comida do que eu vejo aqui (é que eu morei lá por 5 anos e era mais feliz nas compras de casa). Numa terra cuja a média é 40º ao meio dia anualmente, as pessoas comem muita carne, coisas gordurosas e o cardápio não é nada variado. E tem muita gente gorda! Um lugar quente desse deveria manter árvores para amenizar o calor e promover um melhor deslocamento a pé para os cidadãos emagrecerem. Mas não... É mais legal exibir os carros caros nas avenidas com asfalto deformado pelo calor. Dubai com aquele calor de 50º faz melhor, não têm árvores, mas tem tanto rico que quer andar pela cidade como num tapete vermelho lisinho... Os ricos de lá são mais inteligentes que os nossos. 

Outro dia eu escutei uma senhora ensinando a uma amiga como escolher os produtos num supermercado. Eu fiquei de butuca ouvindo e fui falar com ela assim que ela acabou aquela mini-aula. Ela me ensinou uma feira que existe toda quinta-feira, na igreja Boa Morte, no centro. Custei a ir porque é completamente fora de mão de onde moro. Mas nem mesmo o mercado mais famoso da cidade (o do Porto) oferece produtos livres de ganância.  Lá é bom para comprar peixe (não sei como inflacionou tanto de uns anos p/ cá, já que os rios andam bem sujos...), queijos da região entre outros produtos. Verduras e frutas a maioria vem de fora. Eu perguntava em todas as bancas que eu passava onde eles plantavam, e TODOS me responderam sem jeito que eles compravam de outra pessoa, que comprava de outra que talvez seria o produtor. Um ou outro, dos balcões com produtos não perfeitos, eram os próprios produtores. E eu ainda não encontrei alguém que venda tantos temperos e folhas e chás como lá. Mas também não descobri de onde vem.

Mas já temos um esquema aqui em casa para ir na feira lá dos cafundó do centro toda quinta-feira. E é lá que compro os vegetais da casa. É lá que compro as ervas e plantas para o pequeno jardim que estou montando. É lá que eu lembro que comida de verdade tem gosto. A feira é pequena e nem todos os produtores estão ali com seus produtos. Há atravessadores e alguns você nota que algum produto químico foi usado. Mas há várias opções. Nas minhas aulas na Espanha descobri que assim como as palavras sustentável, natural, etc. vem sendo má usada em todas as áreas profissionais, a palavra orgânico também. Eu acreditava que as coisas eram melhores na Europa... Não. A situação é a mesma. A diferença é que lá existe uma quantidade maior de pessoas interessadas em produtos frescos e saudáveis. Por isso as brigas são maiores e é mais fácil encontrar esse tipo de produto. É a população quem garante a demanda! Para um produto receber na embalagem o nome orgânico, ele precisa pagar uma taxa que paga os estudos feitos com seus produtos para a garantia do que afirma. Os pequenos produtores nem sempre podem pagar uma embalagem, muito menos o que vai escrito. E até os produtos orgânicos necessitam levar uma dose de determinados produtos químicos (em quantidade muito menor e de qualidade nem sempre melhor) para poder ser comercializado. Na dúvida estude o site da ANVISA (no caso do Brasil). (Quando eu estudava o caso da minha monografia 2007/2008), vi que muitas leis nossas na área ambiental são apenas traduções de leis estrangeiras, muitas dos E.U.A. A área de saúde/alimentação também é repleta de leis traduzidas, levemente adaptadas.) A única forma de garantir comida limpa é você conhecer tanto de comida, quanto o produtor que lhe fornece. E em geral, ele não coloca a palavra orgânico nos seus produtos. Foi com essas palavras que meu professor Pep Nogué encerrou sua matéria. E foi assim que aprendi mais um movimento para promover a saúde.  

Um assunto emendou no outro, mas o único lado bom de uma terra tão desmatada é que agora temos mais frio! Sim, a barreira de vegetação da frente fria morreu, e agora temos mais dias frios durante o inverno. E por isso, toda noite, venho provando a teoria de que um vegetal orgânico é muito, mais muito mais saboroso que os vendidos nos supermercados. Cada dia eu faço uma sopa diferente sem usar nenhum tipo de caldo (uso apenas a água de cocção do próprio vegetal), escolho uma ou outra erva da minha mini horta ou temperos, tentando sempre realçar o sabor do vegetal apenas e sem passar de 5 ingredientes. E o resultado... fantástico! É bom lembrar toda noite que ainda existe comida naturalmente gostosa.

Sopa de abobrinha menina 
(receita para 3 pessoas)

   
Lave bem a abobrinha e corte em cubos. Coloque tudo numa panela e encha de água (não posso falar até cobrir porque os elementos flutuam. Coloco cerca de 2 litros). Cozinhar até ficar bem macia. Coe e reserve toda a água. Triture com a sálvia (pra 1kg de abobrinha eu uso cerca de 10 folhas pequenas de sálvia), sal e pimenta. Acrescente a água de cocção aos poucos até alcançar a consistência desejada (creme, caldo, etc.). Volte ao fogo (se necessário) e acerte o tempero. Pronto! 
Guarde a água restante na geladeira pra cozinhar arroz, ou o que mais precisar de um caldo nutritivo. 

Para acompanhar, pode servir com croutons, pães, o que quiser. Nesse dia eu me desesperei quando vi que passou o dia e havia comido pouca proteína (desde a bronca dos médicos por meus músculos fracos, venho monitorando religiosamente minha quantidade diária).  Como eu não quis fazer outras combinações, apelei para os ovos caipiras da geladeira. 

Ovos mexidos 
Ovos (conto 1 ovo por pessoa)
sal 
pimenta
páprica

Misturar tudo em uma tigela. Na frigideira já quente com pouco azeite, não pare de mexer os ovos. Essa não é a maneira correta de fazer ovos mexidos, mas eu queria essa consistência, mais firme e mais "crocante". Quando o ovo já está bem cozido, dou golpes com a colher (de pau) na frigideira para ficarem em pedaços. Eu gosto quando estão bem dourados. 

Picar salsinha fresca para decorar e acrescentar vitamina C ao prato.  

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