05 maio, 2014

Meu joelho...

Comecei a entender o que me aconteceu quando não encontrei outra maneira de explicar, a não ser contando meu exemplo, a um amigo que me pedia conselhos de alimentação saudável para um atleta. 


Um garoto que todo os dias levava as vacas para pastar perto do templo e treinava Cricket

Desde criança sempre senti uma sensibilidade nos meus 2 joelhos, era doloroso o simples ato de me ajoelhar no chão, o que eu só fazia com a ajuda de almofadas gordinhas. Mas nem eu nem ninguém da minha família levou isso a sério. Eu adorava me mexer. Jogava bola com os meninos na rua e tenho dedos quebrado nos pés por conta disso. Participava de várias olimpíadas na escola. Resolvi fazer ginástica olímpica e tive minha 1° crise em menos de 1 ano: era extramente doloroso dobrar os joelhos ou qualquer tipo de esforço feito com as pernas. Era uma dor que parecia que ia arrebentar. Passei um bom tempo sem fazer nada e quando melhorou, fui jogar futebol. Em menos de 1 ano, outra crise, desta vez, insuportável de tocar o chão com os pés. O médico diagnosticou síndrome patelo femural, obrigou-me a fazer fisioterapia e por meses tomei relaxante muscular, o tandrilax. Eu sempre cortava o remédio quando começavam as dores no estômago. Ele me proibiu de fazer esportes de impacto por causa dessa síndrome.

Em menos de 1 ano parti para o futebol. E em menos de 1 ano voltei ao médico. Desta vez ele me disse "vá fazer exercícios na água ou de relaxamento. Pare de forçar a barra ou vai parar numa mesa de cirurgia". Parei! Tenho horror a cirurgias! Então fiz hidroginástica, acrescentei musculação, dança... até o joelho doer. Parava e começava de novo. Fiz yoga e exercícios relaxantes e nada aconteceu. Fiz kickbox (não aguentava muito tempo 'relaxando') e as dores voltaram. Ah ok! Síndrome de merda! Parei! E nenhuma ida ao médico me diziam sobre alimentação. 


O mesmo garoto, outro dia, levando as vaquinhas.

Eu quis ser uma boa modelo e comecei umas dietas malucas. E fazia musculação, yoga... e as crises vinham mais rápido. Comecei a perceber que minhas articulações estalavam demais, piorando cada ano. Mas como não sentia dor, não liguei. Como eu já não conseguia fazer muito exercício, passei a seguir essas dietas que cortam a gordura (boa e ruim) das refeições. Aos 21 tive uma gastrite (visto através de uma endoscopia) já avançada e as dores só passaram quando segui um conselho de não comer carne e outras cositas. Mesmo com dietas e estudos sobre comida saudável, notei que ficava cada vez mais sem energia a longo prazo. E eu só ia diminuindo os exercícios diários. Mas criei o hábito de caminhar e não usava transporte algum em curtos e médios caminhos. Só se chovesse.

Já na escola de culinária, aos 29 anos e após 6 meses de curso, minha coluna travou quando estava no vestuário, trocando o uniforme de cozinha. Deve ser o stress, pensei. E durante o estágio escravo, em 10 dias, a dor do joelho voltou com a mesma intensidade das primeiras crises. Ia trabalhar com uma joelheira para aguentar pisar no chão. E meu orgulho me fez cumprir o contrato até o final, mesmo mancando. Ainda bem que não era um restaurante agitado!

A 1° coisa que fiz ao voltar para Barcelona foi ir ao médico. Já era a 4° vez que dava entrada na emergência e eles só aumentavam a dosagem dos remédios para dores musculares. Eu não aguentava tomá-los por 1 semana por causa da dor no estômago que me causavam. Quando cheguei na Índia, já estava há 3 meses mancando e sem conseguir dobrar o joelho mais que um ângulo de 90°. Como já estava acostumada, só estava esperando passar a dor. A médica me disse no início do tratamento "você teve sorte de descobrir isso antes da velhice ou de arrebentar um tendão. Você tem uma deficiência hormonal e não produz líquido suficiente para a lubrificação do seu corpo. Você é "naturalmente" seca por dentro." E de onde você tirou isso? perguntei. "Por causa do seu histórico. Vamos fazer alguns testes e ver se está certo." Em algumas semanas ela confirmou (pela observação) e nem conto os estranhos métodos que utilizaram para me aplicar óleo diretamente no meu organismo... 

Uma das terapias para o joelho
Tem cura? perguntei. "Não, mas seu caso não é grave, não agora". Você só tem que tomar cuidado com sua alimentação, nunca corte a gordura boa da dieta, ingira líquidos, e faça massagens com óleos. "Seu histórico diz que você estava se secando por dentro, mas você não sabia da sua deficiência. Ainda bem que você não descobriu tarde porque aí não tinha volta".  Isso é só um resumo das consultas e conclusões que cheguei. 

Já não bastava a fraqueza, meu joelho estava muito sensível por causa das terapias. Andar, um pouquinho que fosse ou mesmo subir uma escada, era complicado. Mas eu ia mesmo assim. Algo me dizia que se eu não exagerasse, eu poderia "ativar" meus joelhos. Quando acabou o panchakarma tive uma semana de descanso até começar o curso. Como a médica me aconselhou ir andar na cidade e fazer compras (mesmo eu gritando a ela que não tinha dinheiro para gastar a toa quando me apareciam com surpresas na conta), deduzi que, no fundo, ela quis dizer que eu poderia andar mais, estava bem. Ela viajou e não finalizou a minha situação. Até hoje, 4 meses depois, eu só recebi um papel (um documento que o hospital lhe dá no final) com minhas queixas (problemas) de quando cheguei, resultado de alguns exames, um comparativo de antes e depois e como tomar os medicamentos no período de 3 meses após a saída. Em momento algum aquela mulher conversou comigo sobre o que fazer dali em diante a respeito do meu joelho (que ela colocou como prioridade), já que meu joelho não respondeu a nada durante a terapia. E ainda brigava comigo porque eu ia perguntar para os outros médicos a respeito do meu problema. Uai! Porque alguém tem que me explicar! (resumo de uma conversa super estranha e dia que passei a desconfiar de suas atitudes profissionais).


Sim, eu sai dali sem um diagnóstico. Apenas com aquele papel na mão que nada me dizia. Eu não sabia se deveria correr atrás de um médico e fazer fisioterapia ou mandar tudo as favas e ir atrás de uma cirurgia. E minha mente fazia tudo parecer um gigantesco drama em que ia perder meus joelhos. Eu sempre ia atrás do bonitão, pois ele era o único que me respondia como um médico deve, mesmo a dona médica/diretora implicando. Notei que não só comigo ela criava problema, com ele também, com outros, por estar se intrometendo. Como ele era subordinado dela, ele baixava a cabeça. Mas descobri que se eu o encontrasse escondido sem ninguém ver, ele me respondia e explicava. Um dia me explicou que ele não era especialista em articulações, ossos e músculos, mas achava que pelo decorrer dos fatos eu "sequei" meu tendão, por isso sentia como se fosse arrebentar, pois o tendão é dependente da lubrificação e deve ser elástico, maleável e viscoso. Disse que eu deveria basear minha melhora na intensidade da dor. Se não melhorar, procurar um especialista. Finalmente alguém disse algo para fazer quando saísse dali!

Aí eu lembrava da minha última conversa com meu anjo (ops, ele era um dos médicos, mal tinha tempo de atender pacientes por cuidar das questões administrativas) dizendo "Ah, mas você não veio aqui pra tratamento nenhum!" Eu sei, vim pra fazer o curso, respondi. "Não... Você veio aqui aprender a se enxergar..."  Nada do que ele me dizia me fazia sentido ali.



Pelas ruas de Poona

No início de janeiro fui para a cidade de Poona, no estado de Maharashtra, fazer outro curso de culinária ayurvédica com outra médica (indicação de uma amiga), em sua clínica. Conversamos já no primeiro dia sobre todos os custos embutidos e cronograma das aulas. Existe exceção nesse país, pensei feliz! E tive de optar pela estadia mais cara porque eu não dava contada de me agachar para fazer xixi no típico sanitário indiano. E tive a opção de dividir o pagamento! Era um milagre! Ela vendo meu estado para subir um simples degrau e minhas fortes recusas das opções de estadia e possível aventura naquele país, me pediu exames para olhar em que estado eu estava. E prometeu dar continuidade ao tratamento para o joelho. Depois me convidou para almoçar com ela e um grupo de amigos: mestra, discípulos e estudantes de Yoga Massagem Ayurvédica. O restaurante foi uma diversão a parte. Sistema rodízio com as maiores vedetes da culinária do estado de Maharashtra. E ainda fomos convidados a conhecer a cozinha. E eu ainda não sabia quem era aquela senhora baixinha que estava conosco, curta e objetiva em suas palavras, mas sempre sorridente.


Restaurante Radjhani

"Ela disse que quer olhar seu joelho Raquel, vamos até a casa dela agora", me disse a médica enquanto nos despedíamos de todos. Na casa dela, ela me deitou em sua cama e começou a ver meu joelho, tocava... Puta merda! gritei ao mesmo tempo que mordia meus lábios pra não falar palavrão ali, enquanto ela mexia no meu joelho e me fazia perguntas. Seu joelho está morto, ela gritou. O que meu joelho tem? perguntei me mordendo, pois aos poucos ela ia aumentando a intensidade dos seus toques, o que doía cada vez mais. Diferente dos outros médicos, ela focava nos 2 joelhos (todo médico focava mais no esquerdo, que tem uma cicatriz visível de uma queda que levei quando adolescente) e mexia, e doía. "Você passou a proteger demais seus joelhos quando percebeu que eram frágeis. E pirou de vez com essa proteção quando teve o acidente no esquerdo, que está pior. Desde então, você só o protege e não trabalhou como deveria, já que é frágil. E você o matou! Mas tem como ressuscitar! Não circula prana nos seus joelhos faz muitos anos." Feito o diagnóstico, ela passou a mexer, alongar, dobrar... PQP! Achei que ia morrer de tanta dor, que ela ia quebrar meu joelho e eu nunca mais voltaria a andar. Cada vez que eu ameaçava desmaiar, ela gritava respira, solta! Eu só sabia prender a respiração desesperadamente, agarrava o colchão e quando não conseguia mais suportar, me entregava. Ela chegava a pisar forte no meu ombro dizendo: respire, não segure. Não feche os olhos, mantenha-se consciente! Notei que minhas pernas passaram a tremer muito e ela dizia: respira, diga ao seu corpo que está tudo bem e acalme as tremedeiras. O prana está voltando agora. Só aí fui perceber que os alunos dela filmavam, e fotografavam ela em ação e meu desespero! 

Após 1/2 hora eu estava acabada! E mesmo com essa sensação, eu me sentia aliviada. Fez algo na minha cabeça e no peito, me abençoando e me mandando respirar... foi quando comecei a me acalmar. Acabou a tortura, ela riu. Agora respire e descanse. Depois de um tempo percebi que uma das alunas (a Lia) estava ali sentada ao meu lado. Ela ficou me observando e soltou: finalmente você está respirando! Mas eu confessei que não sabia fazer isso! Então ela me pediu para ficar quieta enquanto me explicava uma porrada de coisas: "joelho morto é porque você segurava a dor e protegia tanto que o prana não circulava mais por ali; a importância da respiração e sua interligação com a energia vital; ao proteger demais meu joelho, eu só o piorei; pode doer o que for, mas respire e relaxe o corpo, jamais segure. Eu cheguei a desmaiar no meu 1° encontro com ela; Deixe-se sofrer, só assim se inicia a cura; é completamente errado segurarmos a dor física prendendo a respiração..." Minha mente focou no desmaiar e não soltou mais. Você segura demais as coisas em todos os aspectos da sua vida, não é? ela me perguntou. Eu só confirmei com a cabeça. "É notório, você não sabe respirar!" E me falou sobre quem é Kusum Modak e sua fama como curandeira e sua técnica criada por ela própria. Disse que eu tive muita sorte por ela me tocar no dia que a conheci e que queria estar no meu lugar. 

Então a Kusum e a médica voltaram, ela perguntou como eu estava "vamos, levante, já descansou! Quero te ensinar uma coisinha". Fui atrás dela... "vá, desça essa escada com consciência." Tremi, escadas são minhas torturas diárias fazem 5 meses. Vamos! ela dizia. Sem saber o que era descer escada com consciência, me concentrei e fui. A dor ao dobrar o joelho para o simples ato de galgar degrais, notei que diminuiu significativamente! Também, todo meu estoque de dor se foi durante sua investigação, pensei.  Ela sorrindo me disse para a partir dali, subir e descer escadas daquela maneira. E depois de me fazer comprovar algumas vezes o feito, me ensinou uns exercícios para fazer ao acordar, antes de levantar da cama, para aquecer o joelho. Ao me despedir, lembrei do que a Lia me disse "olhe bem nos olhos dela e agradeça com toda sinceridade essa oportunidade". Fiquei nervosa pois não sei me comportar com formalismos, pessoas santas, em cargos importantes, etc. Nervosa, olhei fundo em seus olhos e agradeci.Nos abraçamos e sem jeito lhe dei um beijo na cabeça (ela é muito mais baixa do que eu). 

Fomos embora e eu estava atordoada e leve! Ao chegar em casa, me deitei e um filme gigantesco me passou pela mente: imagens interligadas de aspectos da minha vida, as conversas com o Dr. anjo, os conselhos do astrólogo e tudo o que eu estava presenciando naquele país absurdamente diferente...A Índia é capaz de fazer loucuras com tua mente se você permitir. Nunca dormi tão bem quanto nesse dia. 

De rickshaw (tuc-tuc) chega-se a qualquer lugar na Índia.




       

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