09 maio, 2014

Meu joelho e meu organismo...

O que ela quis dizer com proteger demais? me perguntava todo santo dia. Até que passei a lembrar o que eu fazia, além de não gostar de ficar sem fazer exercícios. Na ginástica olímpica eu protegia... a trave era meu pior pesadelo, pois sempre me imaginava metendo o joelho nela ao invés de imaginar conseguir pegar impulso suficiente para subi-la. E graças a minha mente (desgracenta) fértil, eu não me entregava, não me arriscava ou ia além no esporte. No futebol foi a mesma coisa, em tudo sempre foi a mesma coisa. Eu era boa, mas não era uma esportista nata. Eu também sempre me cansei fácil, até ganhei o apelido de feijão dos rapazes do futebol. Diziam que eu tinha de comer mais feijão cada vez que me viam jogando. Há 2 anos atrás fui aprender escalada. Aquela sensação de ficar totalmente centrada no presente com seus pés agarrados a um trocinho da pedra que se sobressai e seus dedos das mãos agarrados a outro trocinho do tamanho deles e ter de analisar qual o próximo trocinho de pedra você vai se agarrar... é inexplicável! E inexplicável era o tempo que eu levava para fazer todo o percurso, analisando cada trocinho como uma detetive antes de me mexer. O desespero de cair é o que me dava impulso. Sem falar que a vida pessoal segue o mesmo padrão... 


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Quando comecei o curso de nutrição ayurvédica, o processo de encaixe de peças começou na minha mente. No início, aprendi a larga e complexa filosofia ayurveda de forma resumida, na qual já especificam que cada um é cada um. Bendito termo insistente.

Ayurveda (ou a ciência da vida) utiliza o termo dosha (= body constitutions, tipos de organismo, constituição corporal, etc.) para falar de cada um, físico e mentalmente. Os 3 dosha básicos são Vata (ou Vayu), Pitta e Kapha, e pode haver a combinação de 2 deles ou os 3 juntos. Lembra de utilizarmos frases do tipo meu organismo é rapido, o de fulano é lento por isso engorda fácil, etc.? Os indianos detalham tudo isso pra você. 

Resumindo:
Vata (Vayu): Ar. A raíz. Vata significa espalhar a força nervosa, eletro-motora, atividade física, responsável pelo movimento. A definição da eletricidade do organismo em movimento. 
Pitta: Inerte. Fogo. O fogo interno, bílis, calor corporal, enzimas digestivas, físico-químico, biológico, sistema metabólico e endócrino.
Kapha: espaço intercelular do corpo que conecta as células e tecidos. Mucos, fluido sinovial e tendões. Responsável pela estrutura bruta (sólido e líquido / phlegm - plasma(?)). 

Para tratar cada um, os médicos ayurvédicos determinam qual é o dosha dominante no paciente. Depois verificam qual é a causa da doença (vikriti) e aplicam terapias para equilibrar os fatores que causaram a doença, o que significa que foi causada pelo desequilíbrio do dosha (tipo de organismo). Com ambas as identificações um médico detecta se a doença é fácil ou difícil de curar. As terapias e remédios (fitoterápicos) são usados para fazer com que o corpo e a mente voltem ao seu estado de equilíbrio, regredindo a manifestação da doença. Seu foco é a prevenção.

Momento da criação do seu organismo

Os 6 estágios de uma doença: agravamento; acumulação, transbordamento, relocação, construção em uma nova parte, manifestação. 

Por exemplo, nem todas as pessoas de Vata tem uma deficiência hormonal que não fabrica seu fluido interno sozinha, mas todas tem uma tendência seca por dentro, em maior ou em menor grau. As deficiências genéticas dependem dos genes recebidos dos pais no momento da concepção. Aqui está um bom lembrete para as pessoas aprenderem a se cuidar caso queiram ter filhos. Ninguém tem controle nenhum de qual mistureba irá sair após uma boa noite de sexo e concepção. E aquele novo ser depende metade da mãe (óvulo) e metade do pai (espermatozóide) neste momento, segundo os livros de fisiologia humana. 

Eles nunca consideram a doença em si, e só tratam os sintomas quando estão em estágios graves, causando muito mais que um incomodo para o paciente, ao mesmo tempo que tratam a causa. É muito comum encontrar pessoas tratando uma doença com as duas medicinas. E mais comum ainda, é encontrar pacientes de câncer e outras doenças graves, fazendo o panchakarma para limpar o corpo e evitar futuras manifestações causadas por medicamentos fortes. 
                                                

Esquema que fiz durante o curso

Os fatores que determinam a saúde de uma pessoa são: espiritual, mental, físico (fatores internos); e hora do dia, estações do ano, dieta e estilo de vida (fatores externos). 

Para a Ayurveda a origem das doenças (fisicamente falando) se dá no sistema digestivo. Se formos mais a fundo, também se refere ao como digerimos o mundo. Mas como fui fazer um curso de nutrição, é do sistema digestivo - estômago, pancreas, fígado, instestinos, etc. - que estou falando. (Aprender alguns aspectos da vida nos dá conhecimento para que outros aspectos comecem a fazer sentido... observação é um bom caminho) 

Por isso a nutrição é tão importante na Ayurveda, em todos os aspectos. "A unidade funcional básica do corpo é a célula. O oxigênio é um dos nutrientes necessários pelos tecidos corporais. É transportado pelo sangue e pelos líquidos teciduais até as células, onde combina-se quimicamente com outros nutrientes, oriundos dos alimentos, a fim de liberar energia." Moradores de cidade grande, lembre-se aqui do tipo de ar que está nutrindo seu corpitcho... Mas foco aqui é a comida, como nutrir-se através do que se come.

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A medicina ayurveda não é alternativa (é "alternativa" no ocidente). Na Índia sempre foi a medicina aplicada até a colonização britânica, que oficializou a medicina alopata durante sua invasão. Até hoje as instituições ayurvédicas brigam para retomar seu papel como medicina oficial naquele país. Ela continua sendo aplicada e muito procurada por pessoas que acreditam na sua visão holística e/ou pela população mais pobre (a maioria daquele país) por ser muito mais barata. É para os fortes! Meus relatos anteriores exemplificam isso. Não há analgésicos ou outros procedimentos para mascarar a dor. Os indianos aprendem desde pequeno a interiorizar-se e suportar dores. As vezes há alguns truques para os ocidentais chorões que se aventuram por lá.

Lá (como no ocidente) existe muitos charlatões ayurvédicos, mas não se engane, para ser um médico ayurvédico os estudantes passam pelo mesmo processo que um estudante de medicina alopata passa, 5 anos de curso teórico e prático. E depois se especializam na área que lhes interessa. A diferença está no conteúdo, que é mais complexo e na metodologia, que difere em muitos pontos.


Não existem faculdades fora da Índia. O que existe são curso de terapeutas, o que podemos comparar com... é difícil fazer essa comparação. Mas entenda o seguinte: quem já foi a Índia e encontrou hospitais e médicos sérios da área, deve ter notado que até os hospitais são diferentes dos nossos. Além dos médicos, você encontra os therapists (terapeutas), sempre vestindo um uniforme. Lá, para se tornar um terapeuta, deve-se estudar 1 ano no mínimo, que em geral é dividido entre 6 meses de classes teóricas e 6 meses de prática. São eles que aplicam todos os tratamentos (podemos notar uma certa semelhança no sistema médico- técnico de enfermagem) e preparam os medicamentos. Eles sabem muito bem aplicar todas as técnicas, mas quando são questionados do porquê daquele procedimento, poucos sabem lhe responder (e não é só pelo inglês deficiente).

Logo, esses cursos para estrangeiros de duração de semanas ou poucos meses (como o que eu fiz voltado pra nutrição, somente) são um resumo dos cursos que os terapeutas recebem lá. Os ocidentais sérios voltam lá constantemente para continuar os estudos e/ou são excelentes auto-didatas (um número bem pequeno pra falar a verdade). Para ser um médico ayurvédico no Brasil e em muitos países, o cidadão deve ter se formado, primeiro, na medicina alopata e, depois, foi pra Índia se especializar. O restante são terapeutas. Em geral eles estão aptos a aplicar técnicas (principalmente a massagem) e preparar os remédios, mas não pra desenvolver nem diagnosticar. Da mesma maneira que você encontra em clínicas e spas poucos médicos e vários terapeutas e enfermeiros, acontece o mesmo com a "terapia" ayurvédica no ocidente. Sabemos que algumas vezes encontramos enfermeiros com mais conhecimento que um médico, mas nem por isso ele pode responder como um médico perante a lei. Aplique o bom senso e verifique a história do médico ou terapeuta caso optar por buscar essa ajuda e não puder ir até a Índia.         

Uma visão histórica da Ayurveda:

A palavra história pode ser aplicada em todos os aspectos de atividade humana. História vem do latim Historic ou do grego Historia ou Istoria que significa aprender através de inquéritos ou informações, narrativas, contos ou relatos. 
Ayurveda não é somente uma ciência médica, é uma ciência da vida. Também é chamada de ciência holística porque leva em consideração todos os aspectos da vida (corpo, mente, orgãos sensoriais e alma). Não é uma arte de curar, é um sistema médico. Também ensina os efeitos benéficos e nocivos da comida, exercícios e yoga. 
É muito difícil estabelecer sua data exata. Entretanto, a origem da Ayurveda são tradições orais de cerca de 6.000 anos antes de Cristo. O compêndio original da Ayurveda (Samhita) não está em conformidade com as regras gramaticais estabelecidas por Panini. (Ps: Panini foi um gramático indiano que compôs uma nova gramática sânscrita. Sua composição é usada para marcar o fim do sânscrito védico e o começo do sânscrito clássico.) Estudiosos históricos como Gold e Stuber, dataram Panini de 500 A.C. Assim, deve-se levar em consideração essas datas para os autores do primeiro texto disponível e seus contemporâneos.  

Fontes: 
Fisiologia Humana - Arthur C. Guyton;
History & Philosophy of Ayurved - Subhash Ranade, Abbas Qutab, Rajendra Deshpande
The Ayurveda Encyclopedia - Swami Sada Shiva Tirtha 




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