15 abril, 2014

Minha chegada na Índia

Cardápio do dia

No dia em que fiz 30 anos de idade, no ano passado, eu estava num retiro na França, cercada de desconhecidos e ninguém sabia que era meu aniversário. Foi interessante a confusão interna em que um EU estava contente com aquela novidade de um dia de aniversário passar despercebido e o outro EU carente que vira e mexe imaginava alguém fazendo alguma surpresa, até mesmo a secretária trazendo um recado dos familiares e contando pra todo mundo que era meu aniversário.  Aquele dia foi o final de uma semana interessante, em que fiz um curso de Fotografia Contemplativa (conhecido como Miksang) e trabalhei na cozinha deles. Este curso além de me desafiar a perder o nervoso que ainda me dá tanto de tirar uma foto como de ser fotografada, me ensinou (especificamente a professora) que cada um é um. Um tema que aos poucos tenho levado mais a sério, mas não no mundo da cozinha. Certo dia, após meus inúmeros relatos de que não conseguia me concentrar ou "fazer direito" os exercícios que ela passava antes de nos soltar por Limoges para fotografar, ela me diz em particular que tem pessoas que levam um tempão para ter um insight e tem dos grandes, cinematográficos. Outros têm vários, tão pequenininhos que nem percebe que teve. Você está esperando dos grandes não é?, ela perguntou. Respondi que sim, pois foi assim que aprendi. Então ela me disse "então desaprenda. Você é dos vários pequeninos. Vi isto nas suas fotos. Aceite que você é de outro jeito."  



Vista da minha janela ao amanhecer - Limoges, França

Apesar de eu sempre levantar a bandeira do cada um é cada um, é como se para mim mesma, essa afirmação não fizesse sentido. Como já descrevi aqui, meus objetivos mudaram inúmeras vezes durante o curso de culinária na Espanha e muita coisa passou a fazer mais sentido quando eu terminei. E em busca de me preparar para conseguir ir trabalhar num restaurante em Zurique, fui para a Índia em outubro (2013). Meu objetivo era fazer cursos de culinária ayurvédica pois sempre li superficialmente da visão holística daquela antiga medicina e que o Chef do restaurante Mohini - restaurante ayurvédico em Zurique - me explicou rapidamente.



Red Fort em Nova Delhi

Fui pega de surpresa sobre a cultura da Índia (sim, achei que eu estava preparada para ir, mas não estava). Na 1° semana tive a costumeira diarreia de todos que passam por lá, mas não foi nada catastrófico, eu escolhia bem onde e o quê comer. Ao chegar no hospital me confirmaram que o curso que fui fazer só ia começar na 2° quinzena de dezembro (eu cheguei lá dia 02 de novembro), então aceitei a fazer o tratamento panchakarma. Eu confesso que não li muito a respeito porque pensei que seria algo rápido, já que fui ali para fazer o curso e a médica sabia disso. Me convenci com meu próprio argumento de que já que fui estudar aquela culinária, seria uma boa experiência provar como funciona. Panchakarma (= 5 ações) é um procedimento intenso de desintoxicação do corpo físico, mental e emocional, que o ideal é realizá-lo entre 30 e 45 dias (o médico quem escolhe e discute com o paciente as possibilidades). 

O ideal também, digo por experiência própria, é ir preparado psicologicamente para essa terapia, pois a situação psicológica em que eu me encontrava só agravou a situação. Todos os dias eu pensava em sair correndo, gritar, tinha inúmeros pesadelos. Queria parar tudo e voltar ao meu objetivo, os cursos. Mas aí eu lembrava que estava na Índia, sozinha, e essa era a pior decisão a ser tomada por uma mulher desesperada. O que me salvou foram as descontrações com alguns amigos que conheci lá e as poucas e profundas conversas que eu tinha com um dos médicos, que me foi um verdadeiro anjo durante aqueles 2 meses naquele hospital... uma aula de como eu andava "pensando" errado até aquela fase da vida. 



"Cobertura" de um anexo em construção. 

Esse hospital fica no estado de Tamil Nadu, na zona rural dos arredores da cidade de Coimbatore. Não é bem um hospital, posso comparar a uma clínica, onde antes funcionava um centro de estudos, como um internato. O hospital mesmo ficava dentro da cidade de Coimbatore. Os pacientes ficam ali hospedados pois se deve desligar do mundo real durante o tratamento para sua eficácia. Inclusive, aconselham a não utilizar a internet, nem ver televisão, acompanhar notícias, etc. A rotina era tomar remédios (todos fitoterápicos) que começava as 6h da manhã até o momento de ir dormir. A quantidade variava por paciente de acordo com seu problema e organismo.  Eu nunca acordava na hora, só levantava as 7h quando chegavam as pessoas que distribuiam o chá (o famoso chai) batendo na porta do quarto. Era uma eterna bateção de porta: para entregar os remédios, o café da manhã, para limpar o quarto, oferecer o serviço de lavar roupas (que só usei uma vez porque me rasgaram 2 blusas), o almoço, etc. Os médicos se revezavam 2 vezes por dia, falando com cada paciente para saber como estavam reagindo e esclarecendo dúvidas. Mulher durante o período menstrual fazia uma pausa no tratamento. 



Treatment Room


Tive alguns problemas pessoais com a diretora que só no final descobri que era a minha responsável e descobri também a incrível ganância e materialismo dos indianos. (Não adianta ir lá de férias, vá conviver por mais tempo e descubra por si só). Foi uma atitude mesquinha atrás da outra que só fui ligar os pontos no final, e que tem me feito questionar sua atitude como profissional desde então. 



A comida era a mais neutra possível e foi a melhor dieta para doentes que já experimentei na minha vida! Todo nutricionista deveria aprender com eles como alimentar uma pessoa doente. Tudo fresco e bem cozinhado, nada cru, uma boa variedade durante a semana e cheia de sabor. Até o famoso mingau de arroz para os dias de diarreia recebia um toque especial. 
tentei registrar todos as refeições durante o tratamento
                                          
A cada dia que passa ficamos muito fracos, por conta da limpeza profunda. Por isso é aconselhável (principalmente durante tratamentos específicos) não sair do prédio onde temos nossos quartos, as vezes nem sair do quarto, mas manter portas e janelas abertas para ventilar. Em algum dia da 2° semana eu sentia falta de ar ao ficar em pé e me movimentar. Automaticamente me lembrei das crises de falta de ar que eu tinha em 2003/2004. Me lembrei de todos os lugares em que eu estava quando iniciava as crises e de acordar já no hospital tomando soro. Eu não me lembro de em momento algum os médicos conversarem comigo, apenas com meu ex-namorado. E após algumas crises, lembrei do meu ex me convencer a ir procurar um psiquiatra. Consultei e fui diagnosticada com síndrome do pânico, e em menos de 1 mês já estava tomando a dose mais alta do antidepressivo Efexor. Por 2 anos vivi como um robô com aquela droga, totalmente dependente. Até que certo dia, na bronca homérica que levei do meu professor (um monge e que eu frequentava sua escola da vida em SP) percebi um lado dos meus erros de pensamentos. Um dia eu sabia que não tinha dinheiro para pagar as aulas daquele mês, mas eu não sabia o que fazer pois não queria perder nada. Então falei para a moça que administrava que eu não tinha dinheiro e perguntei o que eu poderia fazer. Ela disse que ia ver. Mas eu entrei na aula como todo pagante fazia, pensando que ela ia resolver. No final, depois de todos irem embora, meu professor me chamou e disse "o dia em que você parar de culpar os outros pela sua vida, você volta aqui". Aquilo me doeu de uma forma descomunal mas foi o quê desencadeou minha saída daquele eterno estado robótico-depressivo e percebi que não há eficácia na maioria dos diagnósticos e tratamentos para depressão (quando não são de verdade). Eu apenas tinha estados depressivos que poderiam ser trabalhados com um bom terapeuta, e não depressão. 

Toda essa lembrança me veio a mente naquela manhã que até ir fazer xixi era um sofrimento. Quando o médico bonitão (apelido que dei porque, mesmo com aquele bigode ele fugir do padrão de beleza indiano, ainda tinha um vozeirão de deixar qualquer mulher fraca atentíssima) chegou para sua visita matutina, eu chorava nervosa e o agarrei pelo braço dizendo: por favor, eu não tenho síndrome do panico! Ele me sentou e me fez relatar tudo o que eu sentia e no nervoso relatei o que descrevi acima também. Jamais esqueço aquele sua atitude espantada e quase gritou "assim que diagnosticam fraqueza no Brasil?" O dia todo pensei sobre o assunto, pois nunca vi um médico assustado daquele jeito. Certa hora lembrei que na época eu fazia aquelas dietas malucas, típicas de garotas com bulimia, pois estava inciando a carreira de modelo e, mesmo sendo magra, tinha de perder peso.

Eureka! Mais uma vez, um problema na alimentação diagnosticado e tratado de forma errada.   

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