09 novembro, 2013

300h em slowfood (dia 28)

Macis seco

Dia chuvoso, frio e sem clientes. Preparamos o gazpacho, desta vez de cenoura. Aproveito para limpar o armário de especiarias quando tirei tudo abaixo para procurar canela em pau e mais pimentas negras em grão. Me deparei com os famosos macis (um arilo que envolve a casca da noz-moscada) secos, que até hoje só tinha visto em livros. Fiquei ali curtindo por alguns minutos, pois tem um cheiro delicioso. 

A noite, entra The Chef e começa mais um arranca-rabo com o Cozinheiro. Estávamos cortando legumes no momento e de assustada que fiquei, arranquei um bom filé do meu dedo que não parava de sangrar. Segurei firme para ninguém ver e levei uns legumes comigo para a pia para disfarçar enquanto tentava fazer o sangue parar. Ao terminar a discussão, o Cozinheiro veio em minha direção ver o que ocorria (pela minha cara) e perguntou se eu tava afim de perder um dedo. O clima ficou super estranho na cozinha e ele começava a me perguntar onde eu estava com a cabeça (pois 99,9% das vezes que alguém se corta é porque estava distraído). Perguntei se podia confiar nele e comentei que toda minha vida aprendi que se deve chamar atenção de alguém (principalmente de coisas erradas) em particular, nunca na frente de todos, ainda mais se essa pessoa tem alguma autoridade no local (no ramo profissional). De imediato ele respondeu que as coisas na Espanha eram assim, mas passou o resto da noite pensativo. 
Ao me ouvir conversando com a garçonete que só me faltavam 2 dias, The Chef me chamou no final do expediente para saber a respeito e pelo o decorrer da conversa, ela simplesmente se esqueceu. "Engraçado... trabalhador pago é lembrado o dia que acaba mas os gratuitos não", pensei.

Ela me perguntou o que achei da experiência e juro que deu vontade de por pra fora todo meu ódio e a conta do futuro tratamento que terei de fazer para os joelhos.  Mas apenas resumi "não aprendi quase nada do que vim atrás, mas pelo menos aprendi como, de verdade, um restaurante funciona, ainda mais um familiar". Fomos interrompidas pelo Cozinheiro com um semblante muito sério pedindo para conversar com The Chef que se recusou e pediu para ele dizer ali mesmo. "Ok, por favor, aprenda a tratar melhor as pessoas. Quando você não está, eu sou a autoridade na cozinha, não me entre aos berros me acusando de erros que, algumas vezes, não fui eu que cometi", soltou o Cozinheiro. Eu fiquei besta ao ouvir aquilo pois me pareceu que ele nunca havia se tocado disso. Mas The Chef começou a retrucar da mesma forma como entra na cozinha, que as coisas são assim, de onde ele tirou essa idéia, que ela faz ali como bem entende... E começa tudo de novo! Mas eu me distrai pensando aguente com calma só mais 2 dias, seu diploma depende do bom comportamento aqui, espanhóis são um povo estranho orgulhosos em excesso que não dão o braço a torcer nem com provas contrárias diante do seus narizes... E me despedi deles. Todos se despediram, na verdade.    

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