10 setembro, 2013

Tentando cozinhar num país em crise



Antes de vir, eu dizia aos meus amigos que eu daria um jeito de ficar por aqui, arrumava algum emprego para me sustentar e tentar. Aí comecei a ouvir relatos de como são tratados os estrangeiros (principalmente os julgados 3º mundo) e comecei a pensar melhor. No final de 2012 passei a me inscrever nas vagas de trabalho em cozinha, já que meu visto permite 4h diárias. Mas recebia sempre a seguinte resposta (de diferentes formas): na situação atual, contratar alguém só por 4 horas é um luxo. Então passei a me inscrever para período integral, mas meu horário de aulas não ajudavam nem um pouco.

Eu sentia muita cobrança por parte dos professores por nossa falta de ritmo. Confesso que eu não sou das mais rápidas, penso muito se estou fazendo certo e graças a minha insegura, confiro várias vezes. Mas lenta sei que não sou! Mas eu não entendia como ia pegar ritmo quando eramos obrigado a cortar 1 batata, meio alho poró, etc. na aula. Eu prestava atenção ao movimento dos meus colegas para saber como eles conseguiam e descobri que todos os que tinham ritmo ou já trabalhavam no setor ou já tinham anos de experiência. Suspirei aliviada: ainda tenho chances! Pedi a um dos meus professores (e amigo hoje em dia) se eu podia ir fazer prácticas (estágio) em algum restaurante nos finais de semana, para eu pegar ritmo. Ele fez seus contatos e fui para entrevistas, mas sempre caia no problema de não ter a seguridad social, um imposto que todo trabalhador paga para o caso de acontecer algum acidente de trabalho, entre outras coisinhas. "Se um fiscal chegar aqui e ver que você não tem esse documento, pagarei uma multa tremenda" era o que eu sempre ouvia. "Peça para a sua escola fazer um documento, assim você usa o seguro saúde do curso e em outras situações trabalhistas, não teremos problema". Pedi ao diretor e ele me disse não, que só faziam o documento de prácticas quando o aluno terminasse o curso e fosse aprovado. Ok, isso é correto. Pedi se há alguma outra opção e ele me pediu para verificar ao trabalhar como autônomo. 

Fui até a hacienda pedir informações e posso trabalhar desde que pague eu (e não a empresa) esse imposto. "Agora está mais barato", disse-me o atendente, "são 50 euros por mês por 6 meses, depois vai aumentando". Pensei: pagar para trabalhar? Nem no meu país que é corrupto desde que nasceu não funciona assim. Digo pagar para trabalhar porque desde o início do curso nos fazem uma lavagem cerebral de que não iremos receber nada nos 3 primeiros meses de trabalho por não ter experiência ou de que os estágios não são pagos, salvo raríssimas exceções. Mas também não consegui entender o fato de só sermos liberados para o estágio no fim do curso, em pleno verão, época que os restaurantes contratam gente em massa e creio que não querem gente para aprender e sim para trabalhar. E sempre me diziam as coisas funcionam assim. Só na Espanha é assim, até meu corrupto país dá uma ajuda de custo para os estagiários.  Em Zurique, um dos gerentes do Hiltl ficou horrorizado com essa situação, explicando que lá todo aluno 1x por semana vai estagiar em algum restaurante, marcado como uma aula e que nas férias, normalmente vão trabalhar. E no final do curso já tem uma certa experiência e TODOS recebem um salário de iniciante. 1º mundo é outra história... 

Mas, o natal de 2012 passei com 2 amigos que fiz aqui, os talentosos da arte Rayane Azevedo (fotógrafa) e Fernando Liberato (diretor de arte). Fizemos nosso jantar e achei o máximo a Ray contando que não é de comer verduras e estava ali, se deliciando com meus tomatinhos recheados com sanfaina. Eu realmente não lembro quando e nem o assunto que nos fez decidir fazermos nossas prácticas do jeito que bem entendemos (pelo menos Fernando conseguiu através da universidade dele uns poucos meses de estágio numa agência de publicidade grande daqui). Mas sei que no início do ano começamos o Menu e por conta da nossa ansiedade publicitária, não esperamos muito tempo para publicar. Quem me conhece sabe que desde que comecei com este blog sempre tive o sonho de poder ilustrar as receitas que eu tento explicar como faz. Cansei de pedir a meus amigos para me ajudarem, mas o tempo é nosso inimigo e o que eu conseguia era bater o ovo com uma mão e tirar foto com o celular da outra. E tentava explicar o máximo de detalhes em texto, já que euzinha aqui, só aprendo vendo alguém fazendo. Mas o resultado foi maravilhoso e um sonho foi realizado (o deles na culinária não sei qual é, mas sei que nossos talentos, cada um na sua área, se encaixaram muito bem). Decido a receita de acordo com nossa grana, da prova ou do desejo de comer da semana. Penso no que é importante ressaltar e vou dizendo o caminho a seguir durante a preparação. Ray faz todas as fotos de todos os ângulos possíveis, até conseguir a que melhor representa. com seu perfeccionismo. Fernando, ao filmar, faz o mesmo e está sempre me gritando porque cortei o alho para o lado errado (da camera). Todo mundo palpita no trabalho do outro. Sempre levamos horas a mais porque, produção é assim, aos poucos para poder pegar o melhor ângulo e fazer tudo direitinho. Depois é festa! Comer tudo aquilo que fizemos, já morrendo de fome de tantas horas de espera! Fernando montou o site e edita todos os vídeos, escolhe as músicas (as vezes eu Ray palpitamos) e põe no ar. E assim, realizamos nosso projeto, com cada um independente na sua área e praticando por conta própria já que não conseguimos trabalhar no que queremos por aqui...

Nenhum comentário:

Postar um comentário