08 setembro, 2013

É vivendo (e cozinhando) que se aprende


Quando vim para Barcelona, havia prometido fazer um diário aqui para amigos e familiares. Passado quase um ano (e parte das dúvidas) cumpro o prometido. Quando cheguei aqui, confesso que apanhava muito do idioma que cheguei sabendo o que estudei na internet e passei o curso me perguntando se fiz uma boa escolha profissional, pessoal, etc. Mas esse curso de Cozinheiro/Chef especializado em Biodietética intensivo que vim fazer, além do espanhol, me ajudou a entender as mentiras culinárias que nos contam e nos iludem por aí.

Por causa da especialização, minha turma tinha aulas de segunda a sexta, das 13h às 19h30. Metade da classe era formada por estrangeiros e a outra metade de espanhóis de toda parte do país. As aulas eram em castellano (o nosso conhecido espanhol) e levei quase 3 meses para conseguir acompanhar bem as matérias. 3 dias por semana tinhamos 2h de aula prática e 1 dia 4h. Apenas 1 dia na semana era todo teórico. Nas aulas práticas reproduziamos as receitas aprendidas nas mais importantes aulas teóricas (cozinha básica, moderna e confeitaria) e das cozinhas de algum autor e uma aula de criação baseada no que vimos aquela semana. A dinâmica era boa, interessante e puxada, só não compreendia fazermos apenas 2 ou 3 pratos por grupos  de 3 e com ingredientes contados exatamente para isso e a obrigação de jogar toda a comida fora no final. Mal tinhamos tempo de provar e não podiamos guardar para comer depois. Esse foi o maior absurdo vivenciado num país que se diz em crise. Enfim...

Apesar de alguns professores montarem a cozinha já com 5 minutos de atraso nas aulas práticas, quase não podermos comer (durante as 6h30 só tinhamos 30min de intervalo),  alguns não dominarem o assunto que estavam dando, o diretor ser muito evasivo entre outros probleminhas... O curso é bom (só não vale o dinheiro investido). Conheci fantásticos Chefs e professores que compensaram o investimento, como Pep Nogué, Mariano Gonzalvo, Laia e Maria José Mendzbal. Algumas matérias tinhamos professores/chefs convidados e o melhor foi conhecer o confeiteiro Takashi Ochiai entre outros conhecidos aqui em Barcelona.  

Durante o curso muitas dúvidas surgiram, já que vim atrás da imagem que nos é vendida da culinária mediterrânea (e porque fui atrás sozinha - sem ajuda de empresas de intercâmbio nem nada - e nenhuma escola francesa me respondeu). Aprendi que a tal culinária mediterrânea que conhecemos como saudável foi um termo criado por um médico americano que concluiu que boa parte da civilização banhada por esse mar, possui baixo índice de problemas cardiacos devido a alimentação. Mas não é a maioria... Aqui se come muita carne de porco, frituras e mais frituras! Mas é verdade que gostam mais de verduras e frutas frescas (percebe-se mais quando sai das cidades grandes) e muito azeite! Na escola, era tanto molho feito com os caldos de carne ali preparados que no 1º mês comecei a passar mal só de passar o dedo e provar, mas conhecer cada vegetal que nunca tinha visto na vida, aquela variedade imensa de cogumelos, peixes e mariscos fresquinhos, compensavam os momentos 'a perdida' nas aulas.   

A culinária atual continua não dando importância à saúde. Tanto que tinhamos um professor que de forma divertida nos ensinava "assim se prepara esse pimentão culinariamente falando e assim se prepara outro pimentão saudavelmente falando". E ele sabia fazer os 2 ficarem deliciosos! Dentro das inúmeras matérias, apenas 6 levantavam a questão saúde e foram as responsáveis por manter um grau mínimo do meu interesse no curso. Bioingredientes, cozinha para alérgicos, intolerantes e doenças alimentárias, cozinha vegetariana, alta cozinha dietética e princípios básicos da nutrição levantavam a moral de quem passava a maioria dos dias tentando entender porque desperdiçavam tanta comida e porque ainda creem que a maioria dos pratos necessitam de alguma proteína ou gordura animal para ser saboroso.  

O balde de água fria veio em março quando fiquei travada no vestiário por uma puta dor na coluna. Fiz a prova chorando (a matéria era difícil e eu queria me livrar logo) e só depois fui ao hospital do plano viagem de saúde (sim, porque a escola não considerou aquilo como acidente de trabalho, apenas queimaduras e cortes são considerados). Lumbalgia aguda dizia meu diagnóstico e ouvi de 2 médicos sermão de postura na cozinha, etc., claro que depois deles me perguntarem inúmeras vezes se era isso mesmo que eu queria fazer, julgando-me "frágil desse jeito". Após pesados remédios que metade meu organismo rejeitava, fui em busca de um fisioterapeuta (particular porque o plano não cobre) já que as dores não passavam. Diagnóstico? Pés chatos nunca curados e nunca tratados com a devida atenção, pernas tortas, síndrome patelo femural desde a infância por causa dos 2 primeiros defeitos e a consequência de não ter dado muita bola para tudo isso no transcorrer dos 30 aninhos de vida. E ele me diz com aquele divertido sotaque latino: "e você ainda escolheu trabalhar com cozinha... Com mesas de trabalho baixas, ficar em pé o dia todo, correr para cima e para baixo as vezes com peso... vocè deve se preparar como uma esportista e que não vai bem no seu caso". Engoli aquilo a seco e perguntei: "tem jeito?" "Se fizer o preparo físico todos os dias e encontrar uma cozinha mais tranquila, tem" ele respondeu.  E desde então procuro ir a piscina toda semana e sempre levo minha bola de pilates para onde vou. 

Em junho acabei o curso desanimada e fui em busca de me distrair nas férias antes de começar o estágio obrigatório. Fui à França num retiro budista e me diverti trabalhando na cozinha deles e provando e conhecendo as iguarias do país que iniciou a tradição gastronômica. Depois fui à Suiça conhecer o restaurante que realiza o que sempre acreditei como alternativa de um restaurante vegetariano na sociedade ocidental, o Hiltl. A Suiça me surpreendeu ao mostrar-me sua preocupação com a alimentação: ali não existe profissional que não seja preparado para sua função e até o restaurante do posto de gasolina da estrada tem a comida boa! Quando o cozinheiro de um desses postos soube que eu era estudante de cozinha ele, com o pouco inglês que tinha e com muita mímica, me ensinou o que pode durante seu pequeno tempo disponível. E de quebra aprendi várias palavras em alemão. Em Zurique, passei 1 dia no Hiltl, comendo, conversando com pessoas da casa, conheci os 3 andares de cozinha, tudo. No final do dia voltei para conversar com alguém do RH, na intenção de poder fazer meu estágio ali. Após vários nãos, uma simpática gerente que ouvia tudo veio falar comigo. Explicou toda a situação, me perguntou muitas coisas, ficou com meu currículum e comentou que apesar de inúmeras boas escolas na Suiça e no mundo todo, quase nenhuma se preocupa com a nutrição (ela se interessava pela especialização obtida no curso). Ela prometeu me ligar assim que soubesse com os advogados da empresa o que poderia ser feito no meu caso. E ela ligou em 2 dias, explicando que por questões legais, não posso na minha atual situação, mas eu tinha as opções: casar com um suiço, passaporte europeu, matricular em qualquer escola de culinária suiça ou provar que minha especialidade ninguém naquele país tem. Essa última alternativa me deixou muito pensativa e me fez lembrar o que esqueci durante esses 10 meses: o motivo que me fez começar tudo de novo no mundo culinário, a alimentação saudável bonita e gostosa. 

E desde então, com dor na coluna, no joelho, pouco dinheiro e desempregada, refaço meus planos! Feliz!



Um comentário:

  1. Querida, só agora pude ler este relato maravilhoso e feliz por saber que entre o talento e amor pela filosofia e arte culinária tens também a verve para as palavras.
    Fiquei preocupado com os excessos de tua imersão na cozinha e tenho que concordar que pelo menos na parte da preparação física, você tem mesmo que cuidar.
    Já te disse, e sei que sabe, movimento é algo que promove mais segurança para o corpo da gente.
    Dançar, andar, correr (minimamente)e até nadar também são boas opções.
    Mas enfim, com certeza vais resolver tudo isso, já que tens o melhor tempero humano que existe, a vocação.
    Sempre me mande estes relatos, adoro ler e mato as saudades de tua linda pessoa, que faz falta por aqui.
    Beijos a até as próximas palavras.

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