02 julho, 2012

Salada de agrião com molho tarê temperado

     
    Os médicos de antigamente não sabiam prescrever refeições mais frequentes, nem conter com o vinho um pulso mais fraco. Ignoravam a sangria e os banhos de vapor que dissipam as doenças crônicas. Não sabiam que, amarrando pés e braços, era possível levar para as extremidades uma doença que residia no fundo do organismo. Um sistema de defesa assim tão completo era inútil, uma vez que os perigos eram raros. 
      Mas, agora, como se multiplicaram os males que afetam a saúde! Esse é o preço que pagamos pelos prazeres ilícitos, usufruídos sem qualquer medida. Nossas doenças são inumeráveis. Isso te espanta? Conta o número de cozinheiros. Todo o trabalho intelectual cessou. Os professores das artes liberais estão abandonados, sem público, com escolas desertas. Nas escolas dos retóricos e dos filósofos, reina a solidão. Mas as cozinhas, que multidão! Um grande número de jovens se amontoa ao redor dos fornos dos perdulários. 
      E nem falo desses infelizes rebanhos de mocinhos a quem, terminada a festa, aguardam, em cubículos, outros tipos de ultrajes. Não falo, também, dos grupos de adolescentes, separados por nação, cor e a fim de que, em cada grupo, todos tenham a mesma quantidade de pelos, a mesma cor de cabelos, e que não sejam misturados aqueles de cabelos lisos com os de cabelos crespos. Não faço referência, igualmente, ao grupo de doceiros e ao de servidores que, a um sinal do senhor, põem-se a circular para servir a ceia. Ó deuses, quantos homens um só ventre faz trabalhar!
      Quê? Acredita que aqueles cogumelos, veneno delicioso, não se agitam no estômago se não matarem instantaneamente? Quê? Crês que aquele glacê não obstrui o fígado? Quê? Estás certo de que aquelas ostras, carne mole cevada com limo, não te transmitem nada do recipiente de onde vieram? Quê? Não achas que aquela salmoura da província, podridão preciosa de peixes ruins, queima as entranhas quando se decompõem em um líquido salgado? Quê? Aquelas carnes purulentas que saem direto do forno para a boca, acreditas que, sem mal algum, se dissolvem facilmente nas entranhas? Em seguida, que arrotos repugnantes e pestilentos! Como se desgostam de si mesmo com tais expurgos! Saiba que esses alimentos não são digeridos, eles apodrecem. 
      Lembro que há algum tempo falava-se muito de um prato famoso no qual foi reunido tudo aquilo que faz parte da mesa de um glutão durante um dia: conchas de Vênus, espôndilos, ostras picadas com extrema arte. Entre esses mariscos, encontravam-se ouriços-do-mar. O conjunto repousava sobre um leito de rascasso do qual haviam sido retirados todas as espinhas. 
      Causa fastio comer um a um todos esses petiscos, pois os sabores se misturam. Mostra-se à mesa aquilo que acontece no estômago farto. Não dá muito menos trabalho colocar o cozinheiro a retirar conchas e ossos e a fazer o trabalho dos dentes? "É desagradável saborear iguarias uma a uma; deve-se servi-las todas ao mesmo tempo, tudo concentrado em um único sabor. Por que levar a mão a uma coisa apenas? Que venham todas ao mesmo tempo; unam-se e combinem-se as propriedades de muitos alimentos. Aqueles que dizem ser a mesa um pretexto para a ostentação e fausto devem saber que não se mostram os guisados, eles devem ser adivinhados. Alimentos cujo o costume é servir separadamente sejam servidos juntos, enfeitados com um mesmo molho; que nenhum se distinga. Ostras, ouriços, espôndilos, rascassos, quando servidos, estejam todos misturados e tenham sido cozidos ao mesmo tempo." Não seria mais confusa a comida vomitada. 
      Assim como essas comidas são complexas, também as doenças por elas causadas não são simples. São confusas, desconhecidas, de muitos tipos. Contra elas, a medicina passou a armar-se com diferentes remédios e cuidados. 
      O mesmo te digo da filosofia. Houve um tempo em que foi mais simples, porque os pecados eram menores e curáveis com pequenos cuidados. Contra tanta subversão dos costumes, todos os recursos deverão ser tentados. Queiram os deuses que, assim, se possa vencer tal calamidade! Passa bem!
Sêneca, cartas escritas entre o ano 63 e 65. 

Escritos há quase 2.000 anos, os textos de Sêneca leva a reflexão da sociedade atual... Vergonhoso pensar que internamente nada mudou...

Salada de agrião com molho tarê temperado
Para quem está se recuperando de uma gripe, de dores de garganta ou mesmo tem aquela leve intolerância à lactose, essa salada é ótima para aliviar seu mal estar. A produção de muco para os mais sensíveis ou que têm problemas respiratórios aumenta quando consome algum tipo de lactose. E ao ingerir agrião você se beneficia de suas propriedades expectorantes que dão um certo alívio caso você não exagerou tanto no queijo e vinho no fim de semana.

molho:
1/4 (xícara) de molho tarê
azeite (metade da quantidade de tarê)
cebolinha picada (1 folhinha comprida dá)
sal (3 pitadas de sal é o suficiente)

Num recipiente de vidro misture todos os ingredientes e agite bem. Sempre que usar, agite o vidrinho, porque o molho e o azeite se separam rapidamente. 

salada:
alface roxa (que é a alface francesa em alguns lugares)
agrião
tomate cereja
gergelim preto e branco levemente tostados

Primeiro, misture gergelim branco com gergelim preto e leve ao baixo numa frigideira antiaderente. Mexa a frigideira o tempo todo para não queimar. O gergelim está pronto quando ele começa a estalar e soltar um cheiro de pipoca. Cuidado, você sabe que está passando do ponto quando ele começar a saltar da frigideira ;)
Monte no prato (ou na travessa) na ordem: alface, agrião, tomate e gergelim. Regue c/ o molho e depois acrescente o azeite já no seu prato, para diluir mais o molho e suavizar seu gosto forte. Buen provecho!!!


Um comentário:

  1. Lindo, Quelzita.
    O Texto do Sêneca é belo e contundente e dá para ilustrar qualquer fragmento do tempo pois os mundos de Hédon continuam habitados com os mesmos prazeres e sabores.
    Agora queria ver uma imagem desta salada na minha frente, fiquei com água na boca.
    Vamos fazer aquele encontro degustativo?
    Beijos.

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