25 julho, 2011

Salada de couve

_ Ô minha linda, como vai você? Faz tempo que não vem por aqui.
_ Tô bem, tô bem!
_ Que bom! Nota-se! Mas se eu te conheço bem... aonde foi parar o brilho dos seus olhos?
_ Ando chateada, só isso. 
_ Só isso? Eu não acho normal pessoas sem brilho nos olhos. 
_ Ah, mas você encontra tanto por aí...
_ Mas eu estou falando de você. 
_ Engraçado que esses dias, nessas divertidas conversas de bar entre amigos, um deles falava sobre a importância da conversa nos relacionamentos. E que tanto faz que tipo de relacionamento seja. 
_ Sabia! O que mais deixa uma mulher sem brilho nos olhos além de perder a liquidação da sua marca favorita?
_ É, mulher é um bicho beeeesta...
_ Mulheres, homens, acho que qualquer ser que respira e pensa. Li num livro que não existe outra coisa que mexe tanto com a gente quanto o tal do relacionamento.
_ Muitas vezes mexe só de um lado.
_ É... mas o que foi que teu amigo disse que te deixou pensativa?
_ Eu já estava meio beba pra lembrar de detalhes, mas lembro que era algo sobre falar o que sente e o que quer, mesmo sendo algo casual.
_ Gostei! É verdade. Ninguém adivinha o que a gente quer. 
_ É...
_ E isso te deixou pensativa? Você não andou abrindo a boca?
_ Eu não dizia nada, achava que ele percebia. Eu gosto do silêncio e de curtir o momento. 
_ Mas tem hora que a gente tem que falar. Seu amigo tem toda razão. 
_ Mas mudos éramos os dois. 
_ Isso é problema dele! Mas por que você mesma não disse algo?
_ Eu estava adorando a situação, só queria saber de curti-la. Como fazíamos tudo aquilo que curtia... ir a praia, pegar estrada, uma desculpa para um vinho, ver a lua na praia, um violão...
_ Mas quem curtia?
_ Nós!
_ Nós?
_ Pelo menos eu curtia, adorava! O outro parecia também...
_ Parecia? Homem faz cada coisa por um buraco novo...
_ Vai deixar eu falar?
_ Fale!
_ Eu gostava de tudo aquilo e achava que se falasse algo ia estragar tudo. E como tava bom, achei melhor ficar quieta. Ele também não dizia nada. 
_ Minha nossa! Duas bestas! Mas por que?
_ Sei lá, essa mania de pensar onde não deve. 
_ Você pensa demais! E fica aí falando de curtir o momento. Só até o momento pedir pra falar... vai entender!
_ [...]
_ Mas você não falou nada até hoje?
_ Não. Eu sabia porque tava com ele, vai ver ele não sabia porque tava comigo.  E só fui tomar coragem quando ele simplesmente começou a sumir. 
_ Sumir?
_ É. Quando o dito cujo não fala mais com você com a mesma frequencia, não te chama mais pra sair, tem sempre um motivo pra não aceitar seus convites... o famoso chá de sumiço!
_ Credo! Que covarde! Mas você fez algo?
_ Não que eu saiba. Acho que cutuquei o ponto fraco dele, ficava na minha e até no séquiçu tive uma reação alérgica e apaguei o fogo. Mas não lembro de desrespeitar ninguém. 
_ Ponto fraco?
_ Manutenção da zona de conforto.
_ Noooossa! Quanta coragem! Nem! Mas como é? Uma reação alérgica?
_ Até no bem bom a mente pensa onde não deve. 
_ Porra! Relaxa mulhér!
_ Me arruma um séquiçu? 
_ Não, resolve esse primeiro. Não! Arrume um melhor! Então quer dizer que ele comeu e não gostou?
_ Não parece?
_ Mas até em restaurantes a primeira coisa que alguém reclama é que não gostou do que comeu. Sai falando mal em alto e bom som. Que covarde!
_ Bom, não recebi reclamação do Procon, de ninguém. Então não sei.
_ Mas vocês ainda se falam?
_ Aham, o mundo virtual permite.
_ E você não falou nada?
_ Não.
_ Vocês têm algum problema?
_ Devagar aí! Eu só queria falar olho no olho. 
_ Desculpa pra não falar. Dois covardes!
_ É que só tomei coragem de falar quando não existia mais olho no olho. 
_ Ai, ai... mas tudo bem. Nada disso justifica o amargo do chá de sumiço!
_ É indigesto.
_ É... mas você não desconfiou?
_ Claro que tenho desconfiômetro, mas sou mais a tal da sinceridade. Só que a desconfiança só apareceu com os primeiros vestígios de sumiço, não antes. 
_ O que você sente agora?   
_ Quer que eu conte de novo?
_ Não tô entennndennndo.
_ Digamos que a admiração que sentia desde que o conhecia está abalada. O príncipe virou sapo.  
_ E você disse isso a ele?
_Claro que não.
_ Puta que pariu!!! Faz um barraquinho pô, nem que seja particular!
_ Ei, estou com fome!
_ Mas e aí, como você se sente?
_ Chateada ou magoada, não sei...
_ Vai... coma essa salada de couve, é levinha e boa pra digestão.




Couve picada bem fininha
Alho picadinho
Azeite
Limão


Numa tigela coloque a couve e capriche no azeite o no suco do limão (não anotei as medidas, mas deve caprichar! Vá experimentando de acordo com seu gosto). Acrescente o alho picadinho e misture bem. Sim, o alho é cru mesmo. Vai notar a maravilha que fica, desde que capriche no azeite e no limão. 


Bon appétit! 

Um comentário:

  1. Oi!

    Já estou aqui seguindo sua renovada cozinha.
    Adorei a história:)
    E adoro salada de couve.

    Boa semana!
    Beijinhos da Formiguinha

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